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O corpo como linguagem do sofrimento

Yara Lúcia Sachetim Donadel
Yara Lúcia Sachetim Donadel

O corpo como linguagem do sofrimento

Cada condição de existência do indivíduo pode se transformar em fonte de doença. Os mesmos fatores que permitem ao indivíduo viver (alimentação, habitação, trabalho, relações familiares e sociais) podem causar doenças, se agem com determinada intensidade, se pesam em efeito ou causa, se agem sem controle. Um mesmo elemento pode assumir dois valores: ser fonte de saúde ou razão de mal-estar.

A relação mente-corpo tem sido tema de discussão desde a Antiguidade. A compreensão desta interação alcançou novas perspectivas, a partir da Psicanálise, quando ambas as dimensões passaram a ser pensadas de forma conjunta e dinâmica, levando à compreensão de que os processos emocionais são acompanhados por alterações fisiológicas.

É cada vez mais frequente na clínica, indivíduos que se mostram extremamente vulneráveis às perdas e conflitos, como consequência não apenas da intensidade que tem na experiência, mas também como falta de preparação para angústia. Cada indivíduo apresenta uma maneira específica de lidar com a sua angústia, de acordo com os seus recursos. 

As somatizações são queixas comuns nos indivíduos que buscam a Psicoterapia, após a realização de uma série de avaliações e exames médicos, quando há a constatação de que os sintomas físicos apresentados, como: falta de ar, dor no peito, náusea, tontura, dores abdominais, enxaqueca, problemas de pele apresentam origem emocional.

O corpo expressa o mal-estar quando o psiquismo entra em falência por não conseguir dar conta do excesso que lhe é depositado, ao mesmo tempo em que lhe faltam instrumentos simbólicos, fazendo com que o único meio possível de descarga seja através do corpo. Este excesso, leva ao sentimento de perda de controle de si, bem como o empobrecimento da linguagem.

O indivíduo, frequentemente, se apresenta tomado por um esvaziamento afetivo e dificuldade aparente de falar da sua história, em detrimento da doença, que toma lugar de destaque no discurso. Gradualmente, ao longo da psicoterapia, o indivíduo passa a expressar-se por meio de palavras e a implicar-se em seu discurso e o corpo biológico deixa de estar em evidência.

O manejo clínico sob o viés psicanalítico, direciona o olhar ao indivíduo, mais do que aos sintomas ou à doença. O trabalho de análise auxilia no desenvolvimento da capacidade elaborativa do paciente. O psicoterapeuta assume o papel de suporte, de modo a introduzir as palavras que faltam no discurso, em um processo gradual de construção do psiquismo que se encontra debilitado de recursos simbólicos.


Yara Lúcia Sachetim Donadel
Yara Lúcia Sachetim Donadel Mestre em Psicologia Clínica, especialista em psicologia hospitalar com experiência em docência e no trabalho clínico em saúde mental.